segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O mal do século


Neste ano perdi muitos amigos queridos para o câncer – muitos de maneira pública, alguns em silêncio -e, olhando para trás, vejo que ele foi uma constante à minha volta.
Em fevereiro, foi-se Eliana Tranchesi; em setembro, Hebe; nesta semana, dois partiram, meu amigo Zé Luca, de 44 anos, e meu tio do coração, Joaquim, pai da minha melhor amiga. No passado, perdi avó, mãe e irmã para a doença, em faixas diferentes de idade. Não tenho como não pensar “naquela doença”, como as pessoas chamavam e muitas chamam ainda o câncer. Vejo, por outro lado, outros tantos que passaram por seu penoso tratamento e ainda convivem com o fantasma de seu retorno.
Sou completamente leigo em medicina, mas não em história. Há sempre um mal para cada século: peste bulbônica, varíola, febre tifoide. Aos trancos e barrancos, depois de milhares – e até milhões de mortes -, os cientistas descobriram como conter essas doenças. O câncer, por sua complexidade e violência, parece o mais duro de vencer.
Até porque nossa sociedade hoje não tem mais os impedimentos religiosos que cegavam e freavam a ciência apregoando que se tratava de um castigo divino aos ímpios por seus pecados. Se mandamos o homem à Lua e podemos mandar mensagens, fotos e filmes do meio da rua por nossos celulares, como ainda não descobrimos a cura para uma doença cada vez mais corriqueira? Quem aqui não conhece pelo menos uma pessoa que morreu de câncer ou o enfrentou em algum momento da vida?
Ele não escolhe idade, região do corpo, classe social, sexo e ainda não está unicamente relacionado a alguns hábitos nefastos, como fumar, comer bobagens ou estar em permanente estresse. Conheci gente que nunca colocou um cigarro na boca e morreu de câncer de pulmão, um maratonista macrobiótico que teve câncer no estômago e uma monja que foi levada por esse mal. Mas fumar, comer tanta bobagem e viver no limite da insanidade criam, sim, um terreno propício para o desenvolvimento do câncer. Uma universidade francesa publicou um estudo neste ano que atesta uma incidência entre duas e três vezes maior de câncer em ratos que se alimentam de transgênicos. De acordo com estimativas da Organização Mundial da (OMS), 27 milhões de pessoas terão câncer em 2030.
Em alguns tipos, a prevenção para detectar a doença  é bem simples; para o câncer de mama (52 mil casos esperados no Brasil até o fim de 2012), a mamografia anual; para o de próstata (mais de 60 mil neste ano), o exame de toque; para o de colo de útero (estimativa de 17,5 mil casos), o Papanicolau, e por aí vai. Quanto mais precoce for o diagnóstico, menores as chances de morrer.
Em vez de ficarmos sentados ante o alastramento epidêmico do câncer, podemos fazer minimamente a nossa parte, seja seguindo sem preguiça a agenda de exames preventivos, seja colaborando para entidades que se dedicam à pesquisa e ao tratamento da doença. Uma delas, o Instituto Desiderata, fez uma parceria com o grande cenógrafo Gringo Cardia para construir salas de quimioterapia infantil cuja decoração reproduz ludicamente o fundo do mar. São nelas que as crianças vítimas do câncer passam a maior parte de seus 18 penosos meses de tratamento. Em São Paulo, há a Quimioteca do Instituto de Oncologia, o GRAACC, com a mesma filosofia. E é comovente como a sociedade aderiu à campanha do Outubro Rosa de prevenção ao câncer de mama.
São muitas as iniciativas privadas de financiamento de pesquisas para prevenção, tratamento e cura do câncer. Mas, ao conversar com esses verdadeiros anjos que se dedicam a elas, todos reclamam da burocracia excessiva, da dificuldade em angariar recursos e da falta de estímulo das políticas oficiais de governo para as doações. Em alguns casos, paga-se até imposto sobre as doações.
Mas há ainda um outro impedimento, de teor mais sinistro. Se cada vez mais pesquisas estão ligando o câncer aos novos hábitos de alimentação e comportamento da sociedade nos últimos 50 anos, a quem não interessa que se façam campanhas contra eles? Quando os “males dos séculos” estavam restritos à infecção por ratos e pela falta de saneamento, não havia resistência em combatê-los. A revolução higiênica da sociedade ocidental conteve boa parte deles. Agora, quando eles mexem com poderosos interesses econômicos e industriais, a coisa ganha nuances que desafiam o próprio conceito de humanidade.
Até que se faça uma grande revolução cultural, comportamental e íntima, a cura do câncer estará bem longe do nosso alcance.(época)

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